Textos de apoio - Ezio Lorenzo Bono

Fabien Eboussi Boulaga (artigo da UP Notícias)

Fabien Eboussi Boulaga (artigo da UP Notícias)
FABIEN EBOUSSI BOULAGA. PENSAMENTO DA CRISE, CRISE DO PENSAMENTO.
(de Ezio Lorenzo Bono, publicado no Jornal UP NOTÌCIAS, Dezembro 2018)

No dia 13 de Outubro de 2018 morreu o filósofo Fabien Eboussi Boulaga, um dos principais mestres da Filosofia Africana Contemporânea. No ano passado ele abrilhantou a Universidade Pedagogica com umas palestras na UP-Maxixe e na UP-Sede: uma experiência que tocou profundamente a todos os que tiveram o privilégio de ouvi-lo. Eboussi Boulaga foi um dos filósofo mais culto e refinado do panorama filosófico actual, com uma lucidez de pensamento extraordinária. A obra que o tornou famoso a nível internacional foi “La crise du muntu“ de 1977. Ele naquela altura era já famoso como teólogo, sendo um padre jesuíta empenhado na reflexão da nova teologia africana empenhado na inculturação da fé e do cristianismo no contexto africano. Nesta sua obra o nosso autor se interroga sobre o que está por trás da pretenção africana (o muntu) de possuir filosofias. A resposta é: o desejo de afirmar uma humanidade negada ou em perigo de existir, segundo uma ordem que exclua a violência e o arbítrio. Para alcançar seu objectivo (existir graças a si e por si próprio) o muntu não precisa abstrair-se do lugar, do tempo e das relações, pois neste caso iria cair numa filosofia alienante. Nem deve perseguir a posse de filosofias para assimilar-se aos dominadores, pois neste modo estaria negando a sua identidade e dignidade, autoconvencendo-se da propria inferioridade. Estas pseudo-filosofias (etnofilosofias) chegaram à hipostatização de um “homo africanus” que não existe, empenhado em exercícios retóricos de pseudo-lógica que o encaixam, através de discursos estéreis sobre o ser, em generalizações indiferenciadas (“etnias”), numa posição de inferioridade em relação ao ocidente. O que faz a superioridade do ocidente é o dinheiro, do qual consegue tudo o resto, as armas, a ciência, a tecnologia... A África , não podendo reivindicar uma superioridade econômica em relação ao ocidente, tenta então perseguir uma superioridade ética, histórica, o de qualquer outro tipo, mas deste modo acaba pantanarse numa polémica sem fim caindo na mesma lógica perversa do colonizador que quer desacreditar e ridicularizar o outro para afirmar a si mesmo. Superando a contraposição directa com o ocidente, o muntu deverá reencontrar a sua autenticidade nas suas tradições sempre desvalorizadas e reduzidas por parte do ocidente a patético folclore (o muntu se reduziu a um dançarinho que dança sobre um palco não construído por ele). Nesta empresa de rebuscar a sua autenticidade, o muntu deverá evitar de cair na mitificação do original e na abstração, para assumir a responsabilidade do presente e do futuro. Portanto a tradição deverá ser uma utopia crítica, memória vigilante sobre o presente, para que não se possa repetir a história de humilhação e destruição (se aconteceu uma vez, pode acontecer ainda); Tradição como identificação crítica do passado, como eliminação das barreiras impostas pelos outros, como retorno a si mesmos e como fonte de criação cultural, religiosa e técnica. Neste sentido a Tradição simboliza o momento da autenticidade africana, além do essencialísmo (busca das origens perdidas). Tradição será utopia crítica, empenho para uma nova racionalidade, que respeite o modelo tradicional, operando assim a transformação numa sociedade de «estilo» africano. Deste modo se supera a etnologia que fala de um mundo que não existe usando como instrumento um saber e praxe ligados à hegemonia colonialista. O muntu assume uma filosofia não mais abstracta (totalitarista, que insiste sobre uma essência falsa) mas emancipadora, sempre ligada a um contexto, que não pode prescindir das suas experiências trágicas. Portanto o êxito será a superação do inútil dilema entre a tradição e o presente, para chegar em fim a habitar o mundo. Esta experiência particular do muntu se torna algo de universal. Uma experiência de crise, de finitude, de morte que abre o acesso à verdade. Recriar, interpretar e concretizar as tradições com serenidade e seriedade, não confundindo as máscaras com os rostos. Como pudemos perceber, o de Eboussi Boulaga é um pensamento refinado, lúcido e muito complexo. Eboussi Boulaga nos ensina que o pensamento filosófico é extremamente complexo e racional. Ele soube combater com inteligência as pretensões de superioridade do ocidente, usando a mesma arma da razão, usando-a até melhor dos mesmos ocidentais. Com ironia Eboussi Boulaga ridiculiza o ocidente que nos momentos críticos da sua história não recorreu à força da razão mas das armas (guerra mundiais). Portanto aquilo que pregava ad extra, não era implementado ad intra. O caminho do muntu foi da traição de si mesmo à redescoberta e releitura da Tradição, uma Tradição porém liberta das suas ambiguidades: as soluções encontradas pela tradição se configuram como um acordo tácito para atribuir um sentido ao muntu diante do drama da finitude. Mesmo que esta conclusão possa parecer limitada, é melhor do que o nada, é uma solução racional e não emotiva. Por isso Eboussi Boulaga conclui a sua obra deixando o muntu num estádio de suspensão. É o êxito inevitável ao qual chega a filosofia que quer manter-se filosófica. Não é possível de facto à filosofia tirar o homem da suspensão pois seria necessário exibir razões que vão além de si mesma. Talvez o erro de Eboussi Boulaga, a nosso modo de ver, foi de pensar que depois de ter suspenso o muntu neste estádio de crise permanente o discurso terminasse com um ponto final. Do ponto de vista filosófico talvez não pode que haver um ponto final. Do ponto de vista existencial, só há um ponto e vírgula; o discurso continua, deve continuar para que a Krisis do muntu se transforme num Kairós (momento oportuno).

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FICHA BIO-BIBLIOGRÁFICA
Fabien Eboussi Boulaga, nasceu em 17 de janeiro, 1934 em Bafia (Camarões) e morreu no 13 de outubro de 2018 em Yaoundé (Camarões). Foi um filósofo e teólogo camaronês. Ex-jesuíta, ele contribuiu particularmente para o desenvolvimento de uma teologia cristã africana. Fez o ensino secundário no seminário de Akono, no sul de Camarões, antes de entrar no noviciado jesuíta em 1955. Foi ordenado sacerdote em 1969 e fez a profissão solene na Companhia de Jesus em 1973. Algumas considerações filo-teológicas sobre a necessidade de africanizar a fé e a prática religiosa cristã provocaram controvérsias (com a publicação do livro “Le bantu problematique” em 1968). Em 1977 ele publicou “La crise du Muntu” que examina questões de autenticidade e tradição que foram muito populares na década de 1970. Em 1980, ele decidiu deixar a Ordem dos Jesuítas e pediu seu retorno ao estado laico. Publicou um ano depois “Cristianisme sans fétiche”, uma crítica das pretensões dogmáticas e metafísicas do catolicismo no contexto colonial. Titular de um diploma em teologia obtido no Instituto Católico de Lyon; Doutor em filosofia e letras, ele estava ensinando em Abidjan e foi professor na Universidade de Yaoundé. Nos anos 80, envolveu-se em associações de direitos humanos. Em 1994, foi nomeado professor no Instituto Católico de Yaoundé [3].

Bibliografia:
• La crise du Muntu, Authenticité africaine et philosophie, Présence africaine, Paris, 1977 et 1997.
• Christianisme sans fétiche : révélation et domination. Essai, Présence africaine, Paris, 1981.
• À contretemps, L’enjeu de Dieu en Afrique, Karthala, Paris 1992.
• Les conférences nationales en Afrique, Une affaire à suivre, Karthala, Paris, 1993.
• La démocratie de transit au Cameroun, L'Harmattan, Paris, 1997.
• Lignes de résistance, Éditions CLE, Yaoundé, 1999.
• (en) Christianity without fetishes. An African critique and recapture of Christianity, traduit en anglais depuis Christianisme sans fétiche (Orbis Books, Maryknoll, N. Y., 1984), puis réédité par Lit Verlag (Allemagne) en 2002, avec un commentaire de Valentin-Yves Mudimbe et une nouvelle postface par l'auteur
• Le génocide rwandais - Les interrogations des intellectuels africains, (Sous dir.), Éditions CLE, Yaoundé, 2006.
• La dialectique de la foi et de la raison (Sous la direction), éditions terroirs, Yaoundé, 319 pages, 2007.
• L'Affaire de la philosophie africaine. Au-delà des querelles, Karthala-éditions terroirs, Paris-Yaoundé, 2011