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CONFERÊNCIA. Pobreza e Fome. (Maxixe, 25-04-2019)

CONFERÊNCIA. Pobreza e Fome. (Maxixe, 25-04-2019)

"VEGETARIANISMO: UMA SOLUÇÃO AO PROBLEMA DA FOME NO MUNDO".
 

Ezio Lorenzo Bono
Palestra na Conferência sobre Pobreza e Fome, organizada pelo Núcleo Filosófico de inhambane.
Sala Magna da UniSave-Maxixe.
Maxixe, 25-04-2019

 

INTRODUÇÃO 

(Conto das crianças jogadas no rio)

Um dia dois amigos estavam a passear conversando na beira de um rio. A um certo ponto viram uma criança no meio do rio que estava para afogar e logo os dois mergulharam e foram resgatar a tempo aquela criança. No entanto que estavam ainda a descansar na beira do rio viram mais uma criança no meio das águas e mergulharam de novo para salvar aquela criança. Não tinham ainda alcançado à beira do rio que ouviram outro grito de mais uma criança que estava a afogar, depois mais uma, mais uma...  o rio estava cheio de crianças afogando. Os dois amigo então ficaram horas a tentar desesperadamente salvar mais crianças possíveis. A um certo ponto um dos dois saiu do rio e deixou o outro sozinho a resgatar as crianças. Este que ficou começou a gritar contra o outro: “Onde estás indo? Não estás a ver que sozinho não vou conseguir?” O outro respondeu: “Você continua a salvar mais crianças possíveis, eu vou descobrir quem está jogando as crianças no rio”. 

 

Este conto nos ensina que diante de problemas trágicos são duas as coisas necessária que são fundamentais: socorrer as vítimas destas emergências e descobrir as causas destas tragédias para procurar resolver o problema na raiz.

Diante da tragédia da fome no mundo devemos por um lado socorrer as situações de emergência com programas de alimentação das vítimas, e do outro lado descobrir as causas destes problemas para tentar solucionar o problema a monte.

Por enquanto vamos deixar o segundo amigo no rio para socorrer as emergências e vamos juntos com o primeiro amigo a descobrir quem está jogando as crianças no rio.

 

O PROBLEMA.

Cada dia mais de 800 milhões de pessoas no mundo não conseguem ter comida suficiente para sobreviver.

Do outro lado temos quase dois bilhões de pessoas com sobrepeso das quais 600 milhões são obesas. Estes números estão em aumento, assim como as mortes devidas à sobrealimentação. 

 

AS CAUSAS.

Da fome.

Miseria, pobreza, guerras, carestias, desastres naturais como enchentes, tempestades tropicais, secas; mudanças climáticas com o aumento das temperaturas; poluição, desperdício de comida (1/3 parte é jogada fora).

Nos países em guerra há maior índice de desnutrição pois se destroem cultivações, as povoações abandonam as casas com grandes êxodos onde não há como procurar-se comida. 

Outras causas: crise hídrica, land grabbing, destinação de costuras para produzir biocombustíveis e para produzir comida para os animais. 

A superpopulação (até 2050 mais de 9 bilhões de pessoas) e a redução das terras cultiváveis.

 

Causas climáticas e culturais.

Os estudiosos apontam várias explicações sobre a causa da existência de países ricos e países pobres.

  1. Causas climáticas: Geralmente os países mais frios são mais desenvolvidos economicamente ao passo que os mais quentes são subdesenvolvidos. O gelo obriga as pessoas a mover-se continuamente para não morrer, caçar animais para ter a pele deles para cobrir-se, construir habitações que reparam do frio, organizar meios de aquecimento dos ambientes, organização da coltura para garantir a alimentação, etc. Quem vive em lugares quentes,  não tem toda esta pressão mas podem viver mais tranquilamente!
  2. Causas culturais: opção fundamental originária de cada cultura, condigna também o seu desenvolvimento económico. Uma cultura mais individualista permite a acumulação do capital que gera outro capital. Isso permite a difusão do capitalismo. Uma cultura mais “comunitarista” impõe a distribuição das próprias riquezas a todos os familiares. Isso não permite a acumulação de capitais e a pessoa vive sempre sem dinheiro. Segundo esta teoria parece que O comunitárismo (comunismo, marxismo) portanto é causa de pobreza. Com a revolução houve a imposição do marxismo leniríamos e o país se tornou o mais pobre do mundo. Nelson Mandela viu os erros do Moçambique e não repetiu o mesmo erro e agora é o país mais rico da África Austral. 

 

Da sobrealimentação.

Comida lixo com pouco valor nutricional, com muita gordura e açúcar. Excessiva oferta de carne. Aumento de emissões de anidride carbônica. Poluição. 

Falta de uma educação alimentar saudável.

Abuso de confecções de plástico e materiais não biodegradáveis (o plástico demora centenas  de anos antes de consumir-se). 

 

ACÇÕES.

A FAO (Food And Agriculture Organization) lançou como objetivo o cancelamento da fome até o ano 2030 lutando contra a subnutrição e a sobrenutrição.

A FAO propõe quatro passos:

  1. O primeiro passo é a luta contra a pobreza: sem dinheiro não há como comprar comida. Devido à crise econômica em 2017 o problema da fome aumentou, especialmente na África central e meridional.
  2. Segurança alimentar com uma redistribuição equa da comida.
  3. Alimentação sadia, nutritiva, acessivel a todos.
  4. Agricultura sustentável com pouco impacto ambiental (na terra e no mar).

 

O primeiro problema é mais grave é o da pobreza. Para acabar com a fome no mundo seriam necessários anualmente 22 bilhões de euro. No entanto só os EUA destinam anualmente para as despesa militares aproximadamente 286 bilhões de euro. 

Nos países mais pobres, 1 habitante sobre 5 vive com menos de 1,25 dólares por dia (em Moçambique muitos vivem com muito menos).

 

O que cada um pode/deve fazer?

  1. Estar informado. Saber onde vai o dinheiro gerido pelo governo, pelas instituições, pelas organizações. Como são geridas as ajudas externas e as condições impostas pelos financiadores. 

Lutar contra as leis que penalizam os mais pobres; defender o direito dos trabalhadores e o salário justo deles; organizar pedidos, baixoassinados pedindo aos governantes investimentos maiores na luta contra a pobreza.

Apoiar um crescimento económico inclusivo, que promova a igualdade.

 

  1. Sustentar uma organização que luta contra a pobreza (ONG, associações religiosas e de caridade, etc), especialmente aquelas que promovem a auto-sustentabilidade: mais do que dar dinheiro ou materiais ajudar a tornar-se autônomos (ensinar a pescar mais do que dar o peixe). Doar directamente a quem precisa. Vigiar sobre aquelas organizações que recebem dinheiro para os pobres ou crianças e que gastam mais para o próprio funcionamento do que ajudar os outros.  Na luta contra a pobreza a mulher tem um papel fundamental. Educar para uma maternidade responsável. Valorizar as comunidades locais para que se tornem autónomas. 
  2. Fazer volontariado para estar envolvido em primeira pessoa. Organizar recolhas de fundos por uma associação, ajudar os sem abrigo, as mensas para os pobres. Entrar em contacto directamente com os pobres, sem discriminação e respeitando a sua dignidade. 

 

STAKEHOLDERS

Grande responsabilidade é dos políticos os quais devem promover políticas de prevenção para tutelar os mais fracos, prevenir os desastres naturais, controlo dos mercados e dos preços, zelar por programas eco-sustentáveis, políticas inclusivas que envolvam as povoações pobres com investimentos mirados, diversificar a economia e potenciar o sector agrículo. 

Investir na ocupação, jovens, direitos da terra, igualdade de oportunidades e redes de segurança social.

Se um líder decide de dedicar-se para resolver o problema da fome, vai conseguir (caso Lula no Brasil. 25 anos atrás o Brasil era o 4.º país a nível mundial como exportador de comida, e no país havia 30.000.000 de brasileiros que passavam fome. )

Por exemplo, investir para dar o almoço aos alunos nas zonas rurais, seria uma contribuição para o desenvolvimento mais sadios deles e um incentivo para estudar melhor e aprender mais. 

 

MAIS UMA SOLUÇÃO: O VEGETARIANISMO

 

O remédio mais eficaz para solucionar a fome no mundo seria uma reviravolta total do mercado actual, mudança das regras econômicas e dos sistemas de produção alimentar actuais. Os grandes produtores agro-alimentares ditam as regras do mercado mundial e contribuem assim para a difusão da fome no Mundo.

Por isso devemos mudar os hábitos alimentares:

Não desperdiçar comida (1/3 desperdiçado que poderia resolver o problema da fome no mundo) nem água. 

Eliminar ou pelo menos diminuir drasticamente o consumo de carne.  

Campanha de sensibilização de redução do consumo de carne. 3/4 da terras cultivadas estão destinadas à produção de comida para os animais, para os homens poder comer a carne destes animais. Se estas culturas fossem convertidas para produzir comida para os homens e não para os animais, estaria resolvido o problema da fome no mundo. 

Se calcula que quem come carne, consume os bens da terra quatro vezes mais de quem não come carne. 

  • comer mais fruta e verdura e cereais 
  • Não desperdiçar comida: guarda-la para comer mais tarde (o pedir take away quando se vai ao ristorante)
  • Diminuir ou eliminar o consumo de carne e substituir com proteínas presentes na ervilha, feijão e nozes...)
  • Consumir menos gorduras, sal e açúcar 
  • Consumir alimentos produzidos localmente (melhor ainda da própria horta) evitando de comer produtos industriais. Possível que tudo deve vir da África do Sul? Até o peixe da Angola? 
  • Utilizar água e garrafas de vidro a preencher (evitando garrafas de plástico)
  • Respeitar o ambiente sem poluir, sem usar plásticos, evitar de imprimir ou fazer fotocópias para poupar papéis e árvores. 
  • Usar os meios tecnológicos para comunicar e difundir acções de luta contra a fome. 
A opção vegetariana como pode entender não é uma questão de amor aos animais, para respeitar a vida ou os direitos deles... mesmo que isso é algo de bom, mas é uma questão moral, é por amor não dos animais, mas dos homens, para que todos possam ter comida e uma alimentação sadia.

Ser vegetariano é uma filosofia de vida, é querer não consumir os recursos que poderiam alimentar outras quatro pessoas.

Isso é talvez pouca coisas, mas se milhões de pessoas fizessem isso faria a diferença. 

 

FONTES:

https://www.ohga.it/fame-zero-la-ricetta-della-fao-per-sconfiggere-la-malnutrizione-entro-il-2030/

http://www.vita.it/it/article/2016/09/15/per-combattere-la-fame-nel-mondo-non-basta-lo-sviluppo-economico/140759/

https://m.wikihow.it/Combattere-la-Povertà-nel-Mondo

https://www.unicef.it/doc/7804/obiettivo-1-sconfiggere-la-poverta.htm

http://asvis.it/sconfiggere-la-fame-nel-mondo/

http://canapainterradilavoro.altervista.org/fame-nel-mondo-cause-soluzioni-azioni-concrete/?doing_wp_cron=1556002190.6041669845581054687500

http://it.wfp.org/storie/10-modi-combattere-la-fame

 

MESA REDONDA. Do Livro à Construção do Homem para o Diálogo e o Desenvolvimento Intelectual. (Maxixe, 23-04-2019)

MESA REDONDA. Do Livro à Construção do Homem para ...
"CADA UM É O RESULTADO DOS LIVROS QUE LEU".

Ézio Lorenzo Bono.
Introdução à Mesa Redonda “Do Livro ã Construção do Homem para o Diálogo e para o Desenvolvimento Intelectual”, na Comemoração do DIA MUNDIAL DO LIVRO E DOS DIREITOS DOS AUTORES.

Este dia foi criado pela UNESCO em 1995, dia da morte de William Shakespeare e Miguel de Cervantes, a fim de estimular a todos, especialmente aos jovens, ao gosto da leitura. O Dia Internacional do Livro é uma oportunidade para chamar atenção da sociedade sobre a importância da leitura no mundo de hoje e para apontar-se estratégias para o sucesso da leitura na escola e em casa. Para uma universidade como a nossa, a leitura e o livro são instrumentos fundamentais para o desenvolvimento humano e a formação integral da pessoa, daí que sempre apoiamos iniciativas que promovem a leitura e escrita, como os concursos literários, as mesas redondas, saraus de literatura, e acima de tudo, as iniciativas que promovem o livro, como lançamentos de livros de autores locais e nacionais, exposições e venda de livros. Tudo isso ao fim de contribuir para a formação de leitores activos, críticos e capazes de fazer uma leitura do mundo. Todos nós, professores, alunos, pais e encarregados de educação precisamos da leitura e dos livros para cultivar a nossa mente. Um ditado diz que cada um de nos é o resultados dos livros que leu. Portanto ler é de extrema importância na formação da própria personalidade. Os livros abrem a mente e o coração, são emoções vibrantes, são cultura, ajudam a reflectir, abrem a mente, nos tornam mais criativos, mais fantasiosos, mais cultos e por isso mais livres. Os livros ampliam a alma, nos tornam melhores, nos ajudam a crescer e a conhecer melhor a nós mesmos. Os livros nos ajudam a voar, nos levam em lugares longiquos e nos fazem conhecer mundos novos sem sair do lugar onde estamos. A leitura se encontra hoje em dia diante do desafio das novas tecnologias. Muitos sustentam que com a difusão dos dispositivos smart diminuiu a leitura e escritura. Na realidade pensamos que nunca na história da humanidade se escreveu e leu tanto como hoje, basta ver as centenas de milhões de mensagem escritas, enviadas e lidas cada dia, milhões de notícias escritas e lidas diariamente, os milhões de livros que existem na internet. Talvez se trata de saber aproveitar mais destes preciosos instrumentos para incentivar mais a boa leitura e a boa escrita (pois não basta ler e escrever muito, mas precisa ler coisas boas e escrever bem), visando em modo especial os jovens que são mais atentos às novas tecnologias. Por isso devemos educar nas escolas com os meios tecnológico mais avançados, incentivar nos nossos estabelecimentos de ensino o uso das bibliotecas virtuais, pois estas oferecerem a todos, mesmos nos cantos mais escondidos e pobres do mundo, o acesso à cultura, à ciência, à pesquisa. Se no passado somente nas grandes universidades detentora de bibliotecas enormes com milhões de livros era possível uma formação adequada, hoje graças à internet todas a universidades do mundo podem ter acesso a todo tipo de informação e cultura, anulando ou pelo menos diminuindo as diferenças entre as instituições de ensino superior. Ler é a comida que alimenta a nossa mente, e como o nosso corpo para viver precisa de comida, assim a nossa mente para não morrer precisa de leitura. A mente para ser útil deve abrir-se, pois a mente é como o pára-quedas: se não se abre, não serve para a nada.
Para concluir, lançamos um desafio a todos os presentes. Não vamos perguntar quantos livros já leram na vossa vida, e nem se leram pelo menos um livro na vossa vida, mas lançamos o convite a todos para começar mesmo hoje a leitura de um novo livro. Outro desafio é de oferecer ou prestar a alguém um livro que nós gostamos para que uma outra pessoa possa se deliciar com a leitura. Um desafio aos pais: esta noite (não só esta noite, mas especialmente esta noite) leiam uma páginas de um bom livro às vossas crianças antes de adormecerem, pois esta prática introduz às crianças ao gosto do belo, das palavra bonitas, da harmonia... e tudo isso acompanhado por uma carga afetiva intensa. Pensamos que este seria o modo melhor para celebrar-mos o dia internacional do livro. Muito obrigado.

P. Ezio Lorenzo Bono
Director da UniSave-Maxixe.
Maxixe, 23 de Abril de 2019

SIMPÓSIO. I° Simpósio de Pesquisa Histórica sobre o Mundo Social da Guerra Civil em Moçambique. (Maxixe, 22-04-2019)

SIMPÓSIO. I° Simpósio de Pesquisa Histórica sobre ...
"MOÇAMBIQUE NUNCA MAIS"

Ezio Lorenzo Bono
Introdução e Encerramento do Iº Simpósio de Pesquisa Histórica. 
Maxixe, 22-04-2019

Introdução.
Caros Estudantes e Docentes do Curso de História, Ex.mos oradores e convidados, especialmente o Prof. Doutor Luís Henrique da Universidade Federal de São Paulo todos os presentes. Quero antes de mais nada parabenizar o curso de História por esta iniciativa académica.
A temática proposta neste Simpósio é muito importante e no mesmo tempo muito sensível, pois a Guerra Civil moçambicana faz parte da história contemporânea cujas feridas estão ainda abertas. Portanto se já para a história moderna ou antiga é difícil alcançar uma objectividade histórica, pois sabemos que a história depende de quem a escreve, pior ainda se queremos tratar factos recentes cuja interpretação não está isenta de preconceitos políticos e ideológicos. Mesmo sabendo que a tarefa do historiador é de analisar em modo crítico e objectivos os factos e os documentos, estamos cientes de que não haverá uma objectividade histórica perfeita, pois a história é algo em continuo movimento. Porque escolhemos estes factos e não outros? Os documentos que analisamos foram escritos por quem? Quantos revisionismos históricos ao longo dos séculos. O filósofo da história, Prof. Ngoenha, nos lembra que a tarefa do historiador é muitas vezes análoga àquela do cozinheiro: em base aos pratos que quer ou deve cozinhar, utiliza os ingredientes necessários para alcançar o seu fim. Portanto o nosso convite é de tratarmos os assuntos com a maior cientificidade e objectividade possível, para não cairmos nas diatribes partidárias que transformariam a academia num circo mediático onde ganha quem grita mais forte. Para terminar, uma pequena provocação: entre os oradores encontramos historiadores e psicólogos mas não encontramos nenhum filósofo. Um filósofo (especialmente um filósofo da história) poderia vigiar para que o discurso seja mantido num nível racional superior, desmascarando as sub-reptícias leituras ideológicas dos fatos e ajudando a dar unidade aos factos históricos lidos dentro das várias teorias filosóficas da história. História entendida na sua dúplice dimensão de “realidade” (res gestae, factos humanos) e de “conhecimento” (narratio rerum gestarum, ou seja o relato destes factos). Mas como dissemos, se trata de uma provocação e como sabem entre as tarefas do filósofo está aquela de provocar. Mais uma vez parabéns aos organizadores e Desejamos a todos um bom trabalho.

Encerramento.
Encerramos este encontro com palavras de agradecimento a todos os oradores. Afinal só temos um historiador, pois temos um antropólogo, um formado em português é um psicólogo. Um tema interdisciplinar que mostrou aspectos inéditos: por exemplo gostei em modo especial da intervenção do Mestre Cossa, parecia que não tinha muito a ver, em vez teve muito a ver. Saiu a proposta de uma Comissão de verdade e reconciliação (a via percorrida pelo Nelson Mandela). Mas se pode apagar o massacre de 600 pessoas com uma anistia geral? Estas vítimas nunca terão justiça? Ninguém paga por este desastre humanitário? Os gerais responsáveis dos massacres nazistas nunca forma perdoados, mas perseguidos até 40 ou 50 anos depois e justiçados. Talvez não é um caminho a percorrer em África. Pelo menos não deixamos morrer a memória. Por exemplo para os mártires de Guiua de 1992 foi concluído no mês passado o processo de recolha de toda a documentação e esperamos em breve de vê-los celebrados nos altares e na memória colectiva. Mas para estes 600 assassinatos? Qual justiça merecem? Este livro do Dr. Hassane é já um passo para manter viva a memória: se mais ninguém se lembrar deles, então eles morreram em vão. É necessária uma leitura crítica e vigilante, porque se aconteceu uma vez pode acontecer de novo (o trauma do 2014 onde todo mundo fugia de Homoíne foi devido à lembrança que algo igual já tinha acontecido e podia repetir-se). É bom contar para que nunca mais se repita esta história de violência. (Depois das ditaduras no Brasil foi escrito um livro denúncia Brasil. Este livro do Dr. Hassane Armando poderia ter tido como título: “Moçambique nunca mais”). O que assusta mais é que em poucos anos foram presos, mortos e deslocados muitos mais moçambicanos pela mão de moçambicanos do que em 500 anos pela mão dos portugueses. Então: “Moçambique nunca mais”! Obrigado a todos os organizadores deste evento, e esperamos muitas mais iniciativas como esta porque cumprem com uma das tarefas de uma universidade: manter viva a memória! Feliz noite para todos.

P. Ézio Lorenzo Bono
Director da UniSave-Maxixe
Maxixe, 22 de Abril de 2019